Vai embora do Brasil? Leve na mala um bocado de otimismo.

Resolvi escrever sobre minha primeira experiencia fora do Brasil, uma maneira que encontrei de reviver e terminar de digerir alguns sentimentos.

Quando entrei no avião com destino á Austrália, deixei as lágrimas rolarem sem alguma resistência, sabia que aquele misto de emoções era único e não iria se repetir, nunca mais.

Levei na bagagem tanto otimismo que  por algum tempo esqueci que eu não conhecia ninguém no meu destino, que nos meus perrengues não teria muito com quem contar, e também esqueci que não falava absolutamente nada de inglês.

Tinha 23 anos, e isso contribuiu muito com este otimismo quase  que inconsequente, na minha cabeça tudo ia desenrolar naturalmente, meu primeiro emprego chegaria até mim na primeira semana, minha escola seria uma diversão e ali eu ia viver a liberdade que eu sempre tinha buscado.

Pousei em solo australiano depois de “milhares” de horas de voo, olhava pela janela do carro e custava a acreditar que aquilo tudo era verdade, lembro daquelas ruas lindas cheias de arvores e casas maravilhosas, parecia cenário de filme. A ficha demorou a cair que tudo aquilo estava realmente acontecendo, lembro que o sentimento era de renascer, de apertar um botão de reset no cérebro e começar tudo do zero.

Entrava em perfumarias e passava horas tentando ler rótulos, fazendo planos de futuras compras, visitava o mercado diariamente, estudando cada item das prateleiras, era tanta coisa diferente, sabores novos para explorar e a prateleira dedicada aos vegetarianos então, amor á primeira vista.

Subia e descia as ruas, entrava na vielas, sentia o cheiro que saia das janelas, das cafeterias. Não tinha um smartphone, nem mesmo um computador. Não podia dividir essas novidades com ninguém.

Voltando para meu primeiro dia, chegamos na nossa casa, era um quarto mal cheiroso e muito bagunçado no segundo andar de uma casa muito estranha, habitada por um “velho” que estava sempre sentado na cama com a porta do quarto aberta, dividíamos o banheiro com o “velho”.

Éramos três em um quarto.

Com alguns dias conseguimos sair daquela casa e fomos para uma bem legal, pra mim era um luxo só. A casa era composta de uma sala, um quarto e uma mini cozinha com um frigobar, o fogão era aquele de acampamento, que nos deixava sempre na mão.

O banheiro também era dividido com os outros moradores do mini prédio.

Da janela da cozinha dava pra ver um quintal que teoricamente pertencia á todos, ali estava a maquina de lavar, que funcionava perante pagamento. Da janela sempre via um senhor, de unhas compridas e sujas, ele passava boa parte do dia fuçando o lixo dos outros moradores. Ele pegava o que achava interessante e colocava no quarto dele, descobri depois que ele era um acumulador compulsivo.

Passou- se a primeira semana, e a rotina ia começar. Meu primeiro dia de aula foi super confuso, como não entendia nada de inglês ficava sem entender as regras da escola, não tinha brasileiros na minha sala, esqueci de mencionar que depois de um teste, fui direcionada para uma sala de iniciantes já uma amiga que estava comigo foi para uma sala mais avançada.

A carga horária era puxada, e as refeições eram feitas ali, no primeiro dia não sabia e fiquei sem comer.

Não levei muito dinheiro comigo, foram mil dólares, a escola já estava paga, mas o aluguel e tudo mais tinha que sair dessa reserva, até eu começar a trabalhar.

Os meus primeiros meses foram a base de cenoura e miojo. Não podia me dar ao luxo de tomar nem mesmo um café, era tudo muito contado, e aquele primeiro emprego que achei que seria tão fácil de encontrar não aparecia.

Comecei a me desesperar, quem já morou sabe que Sydney, é uma cidade cara, e que aluguel é semanal. Gritava por todos os cantos minha necessidade de trabalho, e através de uma indicação fui fazer um teste de camareira de hotel. Passei no teste teórico, não sei como, porque mal conseguia ler as perguntas daquele questionário.

Chegou o dia do teste prático, arrumar camas gigantescas em tempo recorde, limpar janelas e banheiros impecavelmente.

Passei no teste. Mas fui reprovada na minha primeira semana de adaptação.

Pronto voltei a estaca zero!

Graças a um antigo namorado e uma viagem á Bolivia, sabia falar espanhol. Isso salvou minha vida em muitas circunstâncias. Aldo um peruano que trabalhava numa empresa de limpeza, me passou o contato do seu chefe, também peruano. Pronto estava empregada mais uma vez, ufa.

Acordava as 5 da manha, atravessava a cidade, limpava um estabelecimento comercial em tempo recorde e já ia para outro, onde lavava 8 banheiros seguidos. Voltava em tempo de começar a aula as 8 da manhã.

Depois da aula, outros trabalhos me esperavam.

Assim os dias corriam.

Ligava de um orelhão para minha mãe 2 vezes na semana, e usava o computador da escola para conversar com os amigos brasileiros.

A empresa que eu trabalhava infelizmente faliu, e eu me vi desempregada, mas dessa vez queria dar um passo mais alto, trabalhar em uma cafeteria. Fiz muitos testes, mas não era pra mim, meu inglês ainda não era o suficiente para lidar com o público. Fora que não sou feita para trabalhar sob pressão. Graças ao espanhol ( mais uma vez) arrumei trabalho em um restaurante típico e ali fiz muitas amizades.

Um dia estava empregada e feliz, outro estava sem emprego e sem chão.

Mas o meu copo ainda estava mais pro cheio do que pro vazio, porque ainda estava deslumbrada com o novo, e isso foi fundamental para eu não desistir e continuar matando um leão por dia.

Sabia que essa era uma oportunidade única, e que se eu desistisse, talvez nunca mais teria condições de fazer nada parecido. Me dei conta que toda aquela liberdade, ironicamente me deixou muito responsável. Passei a dar muito mais valor á pessoas, e profissões que antes me passavam desapercebidas.

O primeiro ano se passou, e finalmente conseguia conversar em inglês, mesmo com muitos erros, claro. A partir dai tudo começa a melhorar, você se faz entender e recupera sua auto estima. 

Sofri muito em um emprego, o meu chefe me tratava muito mal e sentia prazer de me humilhar na frente dos outros funcionários. Lidei com muitas pessoas com esse perfil, isso ainda sem poder me defender, o que gerou em  mim muitos sinais de estresse.

Continuei, tudo poderia ter sido mais fácil se tivesse chego com um nível de inglês mais avançado, mas a minha história é essa. Passei por coisas que tinha que passar. Foram avanços lentos, como se diz no inglês step by step, mas que me deixam muito orgulhosa.

A Austrália foi a primeira página de um livro que continuo escrevendo, foi lá que conheci o amor da minha vida, pai do meu filho. Ganhei amigos incríveis, todos mais ou menos no mesmo barco que eu.

Aquela bagagem cheia de otimismo eu perdi em muitos momentos, mas ainda bem que a reencontrava sempre. E depois de 3 anos decidi que tinha cumprido meu papel ali naquele país.

Peguei o avião, agora éramos dois, e o destino Londres. Um novo renascimento estava prestes a começar.

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